segunda-feira, 14 de maio de 2012

Lembranças...




Tantos anos se passaram e lá estava ela sentada quase que no mesmo lugar, não fosse pelas pessoas que também sentavam naquela praça a espera de algum transporte, tantas paradas e outras caminhando e ela assistindo a cena. Pensava na vida e nas coisas que havia acontecido nos últimos quatro anos, já agora nos seus vinte e poucos, não tantos, mas razoavelmente poucos anos, relembrava e se punia também por ter deixado tais coisas, pessoas e acontecimentos para trás.

Naquele dia ensolarado e abafado um ou outro transeunte retribui seu olhar. Para receber um cumprimento, ela balança a cabeça e mentalmente responde como se pudessem ler seu pensamento, ora mergulhado em alguns problemas que teimam em sustentar-se em sua cabeça e vida, ora buscando quase que em vão o paradeiro de alguém em especial como se houvesse uma aparelho de GPS instalado em suas correntes neurotransmissoras.

Tudo que ela queria é que depois daqueles quatro anos, ele aparecesse com a mesma solidez daquele dia vinte e sete de abril de mil novecentos e alguma coisa e desta vez ela lhe diria que não importaria quais seriam as condições, elas poderiam ser negociadas e adaptadas àquela situação presente.

As horas vão passando e vez ou outra ela vira a cabeça como se buscasse a direção certa do que esperava. Nunca havia marcado hora pra dizer coisas tão sentimentais, nunca havia pensado tanto no que poderia ouvir de outro alguém como resposta, nunca havia se projetado tanto a alguém. A embalagem vazia de um chocolate em suas mãos, agora mais picotada pela sua ansiedade, já não dava conta de tantos pensamentos e hipóteses que rodeavam seus lembraças.

Mais uma vez rodeia o olhar, busca e acha. Ele, ainda do mesmo jeito, embora pequenas mudanças físicas, mesmo olhar de garoto apaixonado e sorriso certinho de quem nunca precisou de consertos, guarda na bolsa a embalagem picotada, ajeita a franja, respira fundo e levanta, recebe e retribui o abraço, tenta falar, mas só consegue ouvir: “Não precisa dizer nada, já entendi o seu olhar...”

Fica assim selada a promessa de paciência e a aceitação de uma nova conquista silenciosa e aventurada, pelas mãos que não se desgrudam até que o relógio avise que já é tempo de ir embora na espera de um novo sinal. 

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